Devemos parar de comer sal?

Incluído na lista dos três pós brancos mortais (açúcar, farinha e sal), o sal tornou-se inimigo público número 1 dos cardiologistas. As Diretrizes Brasileiras para Tratamento da Hipertensão Arterial recomenda que o consumo de sal diário não ultrapasse 1,5g por dia, em consonância com as recomendações da American Heart Association (AHM).


Em um artigo publicado na Hypertension de fevereiro de 2006, a AHM recomenda quatro intervenções principais para o tratamento e prevenção da hipertensão arterial: perda de peso, diminuir ingesta de sal e álcool, aumentar a ingesta de potássio e seguir a dieta DASH (rica em frutas, vegetais e produtos lácteos sem gordura e pobre em gorduras e colesterol).
Apesar de muitos estudos que apontam redução significativa da pressão arterial com diminuição do consumo de sódio, muitas vezes essa redução é irrisória. A metaanálise de Jurgens et al. revelou que para adultos saudáveis, a redução de ingesta de sódio diminuia em média 1,27 mmHg na pressão arterial sistólica e 0,54 mmHg na pressão arterial diastólica. Em hipertensos, a diferença era 4,18 mmHg na pressão arterial sistólica e 1,98 mmHg na pressão arterial diastólica. O próprio autor considerou o achado irrelevante. Duas outras metaanálises encontraram resultados semelhantes em relação a magnitude de diminuição da pressão arterial, com um achado extra: pacientes hipertensos que consumiam menos sal estavam mais aptos a interromper a medicação.
Para a AHM, a resposta ao sal é muito heterogênea em populações. Algumas pessoas são mais sensíveis ao sódio que outras (refletindo talvez, uma doença renal subclínica), de forma que, como não é possível identificar essas pessoas, a recomendação populacional seria reduzir o consumo de sal para 1,5g ao dia (um americano consome em média 3,5g/dia). Um dos estudos que suportam suas recomendações é o "Effects on blood pressure of reduced dietary sodium and the dietary approache to stop hypertension" publicado na New England de janeiro de 2001.
Esse estudo avaliou 412 adultos com pressão arterial sistólica entre 120 e 159 e pressão arterial diastólica entre 80 e 95 divididos em 2 grandes grupos: dieta habitual americana ou dieta DASH. Dentro dos grandes grupos, os participantes foram divididos em 3 subgrupos: consumo de sódio de 150 mmol/dia (consumo normal de um americano), de 100 mmol/dia (limite proposto) e de 50 mmol/dia. Os achados mais importantes podem ser visualizados no gráfico a seguir:

Pelo gráfico, constatamos que a redução na pressão arterial foi irrisória (de acordo com os dados de outras metaanálises) quando comparados os grupos com ingesta de 150 mmol e 100 mmol por dia. No entando, a mudança para a dieta DASH trouxe resultados mais importantes, como uma redução de 5 mmHg na pressão arterial sistólica. A AHM preconiza que uma redução na pressão arterial de 5 mmHg reduz em 7% a mortalidade por causas totais, de forma que esse resultado apresentado tem relevância clínica.
Cerca de 75% do sódio que consumimos é oriundo de alimentos industrializados. Um double cheeseburguer, batatas fritas pequena e coca cola pequena do McDonalds contém 3,3g de sódio (http://www.mcdonaldsmenu.info/). Além disso, contém 35g de açúcar e 12g de gordura saturada. Seria o sódio o grande problema?

Astrologia - O mês em que nascemos altera nossa personalidade?

Diversos estudos já investigaram a relação entre data de nascimento e diferenças individuais na personalidade e na inteligência geral, doenças psiquiátricas e mesmo diferenças físicas. No entanto, a maioria desses estudos apresentavam uma amostra populacional reduzida, dificultando uma extrapolação para a população total.

O artigo que falaremos diminui esse problema realizando testes em duas grandes populações diferentes, uma de veteranos de guerra do Vietnã (N=4.462) e outra dejovens entre 15 e 24 anos de ambos os sexos (n=11.448). Na primeira população tentou-se correlacionar inteligência e personalidade com conceitos cronológicos de tempo (isto é, mês de nascimento e estação do ano) ou com conceitos astrológicos (signo solar, elemento, e gênero astrológico). Na segunda população, não havia dados sobre personalidade e dia de nascimento, portanto se investigou apenas se havia correlação entre inteligência e alguns aspectos cronológicos do tempo.
Os dados da primeira população foi retirado do Vietnam Experience Study (VES), um grande estudo americano para analisar os efeitos a longo prazo de eventos de guerra. Os soldados foram inicialmente testados em 1965-71 (média de idade= 19,92; DP= 1,72) e re-testados em 1985-86 (idade média= 38,35; DP=1,86). A inteligência foi testada duas vezes, enquanto a personalidade apenas no reteste. O teste de inteligência empregado foi o Principal, Component Analysis (PCA) que consiste em 19 variáveis cognitivas analisando desde capacidades de coordenação, a testes de vocabulário e matemática. O teste de personalidade foi baseado nas quatro dimensões de personalidade de Eysenckian: Psicotismo (P), Extroversão (E), Neuroticismo (N), e interesse social (SD). Todos esses dados foram correlacionados com:
a) Mês de nascimento: janeiro, fevereiro...
b) Estação do ano: Privavera, verão, outono e inverno,
c) Inverno-verão estendidos: Inverno (outubro a março) e Verão (abril a setembro).
d) Primavera-outono estendidos: Primavera (janeiro a junho) e outono (julho a dezembro).
e)Signo solar: áries, touro, capricórnio...
f) Signo solar associado a um elemento: água, fogo, terra e ar. Seguindo a tabela abaixo.
g)Signo solar associado a um gênero astrológico (masculino/feminino), como apontado abaixo.




Os dados da segunda população foram retirados do National Longitude Study of Youth 1979 (NLSY1979) e consistia numa amostra de 11.448 jovens (homens N=5749, mulheres N= 599), com idade entre 15 e 24 anos (idade média= 19,6, DP=2,26). A análise de inteligência foi realizada com um questionário diferente da primeira amostra, denominado Principal Axis Factoring (PAF), que tambén analiza múltiplas instâncias da inteligência. A personalidade como dito anteriormente não foi analizada nessa população. Além disso, como não havia dados sobre dia de nascimento, as correlações foram efetuadas apenas com mês de nascimento, estação de nascimento, primavera e outono estendidos, e inverno e verão estendidos.

Resultados

População de veteranos: Não houve relação entre inteligência ou personalidade com: mês de nascimento, estação do ano, inverno e verão estendidos, signo solar, elemento, ou gênero astrológico. Somente um resultado foi relevante: os militares nascidos no outono estendido (julho a dezembro) eram mais inteligentes do que os nascidos na primavera estendida (janeiro a junho). É importante ressaltar no entanto, que a diferença apesar de significativa foi inferior a um ponto de QI.



População de jovens: Mais uma vez apenas houve diferença estatística na análise de inteligência em relação aos períodos de primavera-outono estendidos. Curiosamente o resultado, no entanto, foi reverso ao da população de veteranos, isto é, nesse estudo os jovens nascidos na primavera estendida eram mais inteligentes :D . No entanto, mais uma vez a diferença era inferior a um ponto de QI.



Apesar do autor ter encontrado esses dois resultados relevantes, por se tratarem de subgrupos de uma amostra, é necessário realizar uma análise multivariável. Quando os valores de p eram submetidos a correção de Bonferroni para 39 análises, NENHUM resultado era significativo.

Discussão

É preciso inicialmente deixar claro que se tratam de dois estudos realizados com populações diferentes e que se submeteram a teste de inteligência diferentes. Não misturar as duas populações foi importante para evitar vieses. Outro aspecto que pode levantar dúvida refere-se a primeira amostra populacional constituida de veteranos de guerra, é de pensamento comum que experiências tramáticas como as presentes em campos de batalha podem interferir na personalidade e mesmo em algum grau na inteligência dos soldados. O autor no entanto afirma que vários indicadores socio-econômicos demontraram que os veteranos do Vietnã se adaptaram a sociedade tão bem quanto outros militares que serviram em outros locais, além de não apresentarem diferenças socio-econômicas em relação ao resto da população. Outro ponto importante é que a personalidade tende a ser estável ao longo da vida, não sofrendo grandes alterações.
Apesar deste artigo não poder refutar a astrologia num aspecto maior (uma vez que ela também se baseia em ciclos planetários e lunares), este artigo corrobora com as revisões da literatura atuais, e ataca duramente a astrologia mais simplória baseada unicamente nos signos solares, encontrada rotineiramente em jornais e revistas. Enfim, este artigo não demonstrou correlação entre inteligência ou personalidade com signos solares, elementos, gênero astrológico e portanto não dá suporte as alegações da astrologia. Mais do que isso, esse artigo não aponta nenhuma correlação entre inteligência e personalidade e fatores cronológicos, sejam eles mês de nascimento, estação do ano, ou estações estendidas.

Referência Bibliográfica
Peter, Hartmann; Reuter, Martin; Nyborg, Helmut (2006). "The relationship between date of birth and individual differences in personality and intelligence: A large-scale study". Personality and Individual Differences 40: 1349–1362. doi:10.1016/j.paid.2005.11.017. ISSN 0191-8869. Lay summaryDiscovery News (2006-04-25).

PS: Este artigo é citado na descrição em inglês de astrologia na Wikipedia.